POV DanielaO setor de desembarque estava naquele caos organizado, que todo aeroporto parecia achar charmoso e eu detestava com convicção.Gente em excesso, tela piscando com informação atrasada, criança chorando em algum ponto da esteira e uma vontade muito honesta de sentar no chão e me recusar a ser adulta pelo resto do dia. Segurei o celular com uma mão, empurrei o cabelo para trás e abri a conversa da Mel enquanto a esteira finalmente começava a girar.Dani: Cheguei, pegando a malaDani: Mulher, tô moída!Dani: Odeio viajarA resposta veio antes da minha mala aparecer. Melissa nunca falhava quando o assunto era surgir no momento exato para debochar da minha existência.Picles: Drama. Você só ficou sentada por horas e ganhou amendoim ruimPicles: Eu, inclusive, estou aqui fora te esperando como uma cidadã exemplarPicles: ValorizeSorri sozinha, cansada demais para fingir compostura, e digitei com o polegar enquanto uma mala vermelha passava pela terceira vez na minha frente e nada da minha.Dani: Cidadã exemplar é forteDani: Você me ama, admitePicles: Infelizmente amoPicles: E anda logo, estacionar aqui é um assalto legalizadoSoltei uma risada curta, dessas que escapam antes de você lembrar que está em público.Picles.Ninguém chamava a melhor amiga de Picles em condições normais, mas a nossa amizade também nunca foi exatamente normal. Quando a gente se conheceu, tinha um excesso insuportável de mulher chamando todo mundo de “miga” a cada três palavras, com uma falsidade tão óbvia que chegava a dar preguiça.Mel e eu começamos a nos chamar de “migues” só para zoar. Migues virou outra coisa, depois virou piada fixa, e em algum ponto completamente sem lógica acabou em Picles. Ficou. Grudou de um jeito ridículo. Hoje, se ela me chamasse de Daniela, eu provavelmente assumiria que alguém tinha morrido.Minha mala aparece de repente, sem aviso e sem consideração nenhuma pelo meu estado. Puxo a alça com mais força do que elegância e quase perco o equilíbrio no processo, arrancando de mim um suspiro irritado.Dani: Acabei de sair na mão com a malaDani: Se eu sobreviver ao desembarque, já é vitóriaPicles: Tô na saída trêsPicles: Vestido amareloPicles: E antes que você pergunte, sim, eu tô gostosaBalancei a cabeça, sorrindo sem querer.Isso também era muito ela. A vida já tinha tentado quebrá-la de formas que eu nunca achei justas, e ainda assim, Mel continuava encontrando um jeito de ser luz sem virar personagem de si mesma. Era força de quem apanhou feio da vida e, por alguma teimosia bonita, continuou em pé. Talvez fosse por isso que eu admirasse tanto aquela mulher. Talvez, também, não importa quanto tempo passasse, eu sempre soubesse voltar para ela.Tinham amizades que precisavam de manutenção constante para não desmontar. A nossa nunca funcionou assim. A gente podia passar meses sem se ver, dias sem se falar, entrar em fases corridas, reclamar da vida por áudio picado às duas da manhã e, ainda assim, bastava uma mensagem idiota para tudo voltar ao lugar. Sem cerimônia. Sem cobrança. Sem aquela contabilidade emocional cansativa que estraga tanta relação boa.Só verdade. E intimidade suficiente para sobreviver ao tempo.Segurei a mala, ajustei a bolsa no ombro e segui o fluxo de gente em direção à saída, passando por famílias apressadas, casais se procurando com os olhos e motoristas com placas nas mãos e expressão de derrota. Meu corpo inteiro pedia cama, banho e silêncio, mas a expectativa começou a empurrar tudo para segundo plano assim que as portas automáticas apareceram na frente.Procurei por ela no meio das pessoas quase sem pensar. Achei rápido. Vestido amarelo, uma mão apoiada na alça da bolsa, a outra erguida no segundo em que me viu. E aquele sorriso. Meu peito apertou num lugar bom.Mel estava um pouco diferente do que eu lembrava e exatamente igual ao que eu sentia falta. Mais mulher, talvez. Mais segura em alguns ângulos. Mais dona de si. Mas ainda com a mesma energia viva nos olhos, aquela que sempre dava a impressão de que ela estava prestes a dizer alguma coisa absurda só para me fazer rir no pior momento possível.Ela abriu os braços antes mesmo que eu chegasse direito.— Picles, você tá com uma cara péssima — disse, rindo, já vindo na minha direção. — Quase mandei buscar uma cadeira de rodas.A risada escapou junto com o resto da saudade.— Vai pro inferno — respondi, largando a mala para abraçá-la. — Eu viajei horas pra você me humilhar no desembarque?— Claro — ela devolveu, me apertando forte. — Recepção calorosa e sinceridade brutal. Você sabia o pacote.Abracei-a mais forte por um segundo, sentindo aquele alívio raro de quando a saudade finalmente encontra corpo. Mel foi a primeira a se afastar, ainda com as mãos nos meus braços, me analisando de cima a baixo com a atenção debochada de quem tinha todo o direito do mundo de avaliar meu estado de decomposição.— Você tá acabada mesmo — concluiu, apertando os lábios para segurar o riso. — Seu cabelo tá bonito, mas sua alma pediu socorro no portão de embarque.Revirei os olhos e puxei a mala de volta para perto de mim.— Obrigada pela delicadeza, Picles — rebati, empurrando o ombro dela com o meu enquanto começávamos a andar. — É sempre bom ser recebida por alguém que me ama e me destrói no mesmo fôlego.— Eu faço os dois com excelência — ela respondeu, jogando o cabelo para trás e já tomando a dianteira pelo corredor de saída. — Anda logo, antes que você resolva desmaiar em cima da bagagem e eu tenha que explicar pros seguranças que isso aqui é só a sua personalidade.Saímos juntas para a área externa do aeroporto, e o ar bateu diferente no segundo em que as portas se abriram. Tinha calor, claro. Mas também tinha aquele tipo de claridade que deixava tudo mais nítido, mais vivo, como se a ilha inteira estivesse fazendo questão de lembrar a qualquer recém-chegado que ali até o cansaço vinha com paisagem incrível.O céu estava limpo, aberto numa faixa azul quase irritante de tão bonita. Mais adiante, entre palmeiras, carros alugados e gente carregando prancha debaixo do braço com uma confiança que eu invejava sem nenhum pudor, dava para ver um pedaço do mar brilhando.— Tá, isso aqui ajuda um pouco — admiti, soltando o ar devagar.Mel acompanhou meu olhar e sorriu daquele jeito satisfeito de quem já sabia que eu ia ceder.— Eu sabia — disse, pegando a alça da minha mala antes que eu protestasse. — Você reclama de viajar, reclama de aeroporto, reclama de mala, mas vê um azul desses e já começa a se reconciliar com a existência.— Não exagera — respondi, embora já estivesse um pouco menos mal-humorada. — Ainda odeio avião. Ainda odeio conexão. Ainda odeio gente que levanta antes do aviso e entope o corredor pra tirar as mochilas.— Tá, aí você tem um ponto — ela concordou, guiando a mala para a faixa de pedestres.Andamos em silêncio por alguns segundos, mais para eu absorver tudo do que por falta do que dizer. Ela apoiou a mala no porta-malas, fechou com o quadril e se virou para mim com as sobrancelhas erguidas.— Você tá com cara de quem vai fazer discurso.Cruzei os braços por um instante, rendida antes mesmo de tentar me defender.— Só tava pensando que você tá bonita.A expressão dela mudou numa fração de segundo, ganhando uma doçura que ela só deixava aparecer quando baixava a guarda comigo.— Você também tá — respondeu, encostando dois dedos no meu braço antes de abrir a porta do passageiro. — Com cara de acabada, mal-alimentada e pronta pra matar alguém, mas tá.— Aí voltou ao normal.— Graças a Deus.Entrei, rindo, e larguei a bolsa no colo enquanto ela dava a volta para o banco do motorista. O carro estava gelado no limite do suportável, o que fez meu corpo inteiro agradecer. Afivelei o cinto e esperei enquanto ela ligava o motor, ajeitava os óculos de sol na cabeça e dava uma última conferida na fila do desembarque antes de sair da vaga.— Então… — começou, entrando no fluxo de carros com uma tranquilidade invejável. — antes de qualquer coisa: você vai pra minha casa, toma banho, come alguma coisa e dorme um pouco. Essa é a parte em que eu pareço responsável.Encostei a cabeça no banco e fechei os olhos por um segundo.— Eu aceito todas as etapas desse plano.— Ótimo, porque ele não era negociável.Abri os olhos de novo quando pegamos a via principal e a vista começou a se abrir do outro lado da janela. A estrada acompanhava a costa em alguns trechos, então o mar aparecia e sumia entre hotéis baixos, coqueiros tortos pelo vento e lojinhas coloridas com placas para turistas. Tinha movimento, mas nada naquele caos espremido de cidade grande. Até a pressa parecia menos agressiva ali.— Você escolheu viver num cartão-postal, né? — comentei, acompanhando um grupo de crianças correndo perto de uma sorveteria.Mel deu de ombros, mas o sorriso escapou mesmo assim.— Eu escolhi sobreviver primeiro. O lugar bonito veio no pacote.Virei o rosto para ela. O tom foi leve, quase casual, mas havia algo naquela frase para me fazer apertar os dedos sobre a alça da bolsa. Era isso. Ela fazia isso às vezes. Entregava uma verdade pesada com a voz de quem estava falando do tempo, e justamente por isso batia mais fundo.— Ainda bem que veio — falei, mais baixo.Ela tirou uma das mãos do volante por um instante e apertou meu joelho.— Ainda bem que você veio também, Picles.Do lado de fora, a ilha seguia bonita sem esforço. Do lado de dentro, a sensação estranha de anos sem abraço ia finalmente se ajustando. Ela foi a primeira a quebrar o clima antes que ficasse sério o bastante para nos constranger.— Agora vem a parte importante — anunciou, entrando numa avenida mais arborizada. — Qual é o tamanho real do seu trabalho aqui? Porque, se você me disser que vai passar dias trancada entrevistando gente e fingindo que gosta, eu vou me ofender pessoalmente.Soltei um suspiro longo, teatral, e afundei um pouco mais no banco.— Infelizmente, existe uma pauta, existem pessoas querendo que eu seja profissional, e infelizmente, o jornalismo continua atrapalhando minha vocação pra herdeira.Mel riu alto e apontou para mim sem tirar a atenção da rua.— Essa vocação você tem desde os dezoito.— Antes.— Mimada.Passei a mão no rosto, tentando acordar um pouco da própria exaustão.— Mas não é o tempo todo. Tenho algumas entrevistas, uma visita técnica, umas reuniões chatas e o resto tá mais solto. Dá pra respirar.— Então perfeito — ela concluiu, satisfeita demais com a própria velocidade mental. — Você trabalha quando precisar, descansa porque tá um bagaço e, à noite, a gente sai.Virei o rosto devagar na direção dela.— Hoje?— Óbvio que hoje.— Mel, eu saí de um aeroporto faz dez minutos.— E vai me dizer que isso te impediu de colocar uma roupa boa e tomar um drinque em algum momento da sua vida?Merda, infelizmente ela me conhecia.— Exatamente — disse, batendo de leve no volante, sorrindo com gosto quando não respondi. — Faz o que precisa, xinga a vida por meia hora e depois eu resolvo o resto.— Resolver o resto significa o quê, exatamente? — perguntei, estreitando os olhos. — Porque seu histórico com essa frase é péssimo.Ela fez aquela expressão inocente que, vindo dela, sempre significava problema.— Significa que eu vou te levar pra um lugar bonito, com bebida gelada, música boa e gente interessante o suficiente pra fazer você lembrar que ainda sabe se divertir.— Isso foi estranhamente específico.— Porque eu pensei nisso com carinho.Observei o perfil dela por um instante e não resisti ao sorriso que veio.Era tão Mel aquilo. Acreditar que uma amiga cansada podia ser recuperada com banho, comida, deboche e uma noite boa pela frente.— Tá bom — cedi, apoiando a cabeça na janela por um segundo. — Mas se você me arrastar pra algum lugar lotado onde eu tenha que fingir animação, eu vou embora no primeiro minuto.— Você não vai — rebateu, virando à esquerda com firmeza. — Porque eu te conheço melhor do que você se conhece cansada.— Frase irritante.— Frase correta.Balancei a cabeça, já rindo, e deixei a paisagem correr do lado de fora enquanto ela falava mais alguma coisa sobre trânsito, turistas e um restaurante que eu precisava conhecer antes de voltar.Eu ainda estava moída. O corpo seguia pesado, a cabeça meio atrasada de fuso, e havia trabalho me esperando em algum ponto muito próximo do futuro. Mas a ilha brilhava lá fora, Mel estava ao meu lado e, pela primeira vez desde que saí de casa, a viagem parecia ter aterrissado de verdade.A casa da Mel ficava numa rua tranquila, com árvores tortas pelo vento, muros baixos e aquele tipo de calma que só existia em lugares onde o mar estava sempre por perto, mesmo quando você não via. Dava para sentir no jeito como o ar entrava pelas janelas, na luz mais aberta, na ausência completa de buzina e pressa.— Chegamos — anunciou, desligando o carro e tirando o cinto com um suspiro satisfeito. — E antes que você faça qualquer proposta absurda, não, você não vai desfazer a mala agora.Soltei uma risada cansada e peguei a bolsa no banco.— Eu nem tenho força física pra fingir organização.— Ótimo — ela rebateu, saindo do carro e abrindo o porta-malas. — Continua assim.A acompanhei até a porta de entrada enquanto ela puxava minha mala sem me dar espaço para protestar. A casa era bonita de um jeito fácil, cheia de detalhes que tinham a sua cara. Planta perto da janela, manta jogada no braço do sofá, livro aberto virado para baixo na mesa de centro, um copo esquecido na bancada e uma sandália largada perto da porta. Tinha vida ali. Era o tipo de bagunça leve que deixava tudo mais humano.Parei por um segundo no meio da sala, conferindo em volta.— Seu lugar é lindo — comentei, deixando a bolsa no sofá.Mel fechou a porta com o pé, largou minha mala perto do corredor e sorriu com aquele orgulho discreto de quem tinha construído alguma coisa importante com as próprias mãos.— Eu gosto daqui — disse, apoiando uma das mãos na cintura. — Demorei um pouco pra conseguir dizer isso sem culpa, mas agora gosto mesmo.Olhei para ela de novo, absorvendo a frase junto com o que vinha por baixo dela. Ela tinha esse talento estranho de falar coisa séria com leveza o suficiente para não pedir peso de volta.— Ainda bem — respondi, tirando o tênis e empurrando um deles para o canto com a ponta do pé. — Você merecia um lugar que te fizesse bem.A expressão dela amoleceu só por um instante, antes de a ironia voltar com tudo.— Merecia, sim — concordou, já virando para a cozinha. — E você merece um banho porque tá com cheiro de aeroporto e ódio.— Sensacional o nível dessa recepção.— Eu sou honesta. É meu pior defeito.Segui atrás dela pelo corredor, rindo sozinha, e percebi que o cansaço era menos agressivo ali dentro. Ainda estava no meu corpo inteiro, claro. Ombros pesados, cabeça meio lenta, humor ameaçando oscilar por qualquer detalhe idiota. Mesmo assim, tudo ficou mais administrável no segundo em que deixei a mala num quarto arejado, com colcha clara, cortina leve e uma janela aberta para um pedaço de céu azul entre folhas.— Banho primeiro — Mel repetiu da porta, cruzando os braços. — Depois você come. Depois você apaga. Nessa ordem.Apontei para ela, séria só na intenção.— Se você tiver feito café, eu reconsidero a hierarquia.— Tenho suco, água gelada e bom senso — ela respondeu, já recuando corredor afora. — Café entra quando você voltar ao mundo dos vivos.Vesti a primeira roupa confortável que achei na mala depois do banho, prendi o cabelo molhado num coque frouxo e fui para a cozinha arrastando o corpo num nível de dignidade discutível. Mel já tinha deixado um prato montado na bancada, com sanduíche, fruta cortada e um copo enorme de alguma coisa gelada.Parei diante daquilo com um carinho ridículo.— Picles, eu vou ter que te beijar na boca — avisei, puxando a cadeira.Ela soltou uma risada alta do outro lado da pia, onde mexia em alguma panela sem urgência nenhuma.— Não estraga nossa amizade desse jeito — respondeu, apontando a colher para mim antes de voltar ao que estava fazendo. — Come.Obedeci sem nem fingir resistência. A primeira mordida foi suficiente para lembrar meu corpo de que ele estava funcionando no automático fazia horas. Ela me observou por cima do balcão com aquela atenção despretensiosa que eu conhecia bem.A conversa foi andando daquele jeito bom, que soava fácil, mesmo quando entrava em assunto mais fundo. Falei por alto da pauta, do pessoal do jornal, da sensação constante de estar cercada por gente opinando em tom de urgência sobre coisas que nem sempre mereciam. Mel escutou, comentou, riu, xingou uma editora que nem conhecia e, em algum ponto entre uma frase e outra, eu percebi que estava ficando mais leve.— Vai deitar — ela ordenou, pegando meu prato antes que eu terminasse de agradecer direito. — Sua cara já entrou em modo economia de bateria.Levantei da cadeira num esforço que teria sido humilhante diante de qualquer outra pessoa.— Você vai usar isso contra mim no futuro, né?— Com certeza — respondeu, recolhendo o copo vazio. — Descansa. Depois eu decido o que fazer com você à noite.Apontei para ela com desconfiança, mas não tive energia para argumentar. Apaguei quase no instante em que encostei a cabeça no travesseiro.Acordei com o quarto já mergulhado naquela luz dourada do fim de tarde, macia o suficiente para enganar o corpo e dar a sensação de que eu tinha dormido um ano inteiro. Por dois segundos, não entendi onde estava. No terceiro, lembrei da viagem, da ilha, da Mel e do motivo de o lençol ter cheiro de roupa limpa em vez de exaustão acumulada.Peguei o celular na mesa de cabeceira e vi algumas mensagens do trabalho, nada catastrófico, o que já me deixou melhor. Respondi o essencial, confirmei horário de uma reunião para o dia seguinte e só então senti o corpo inteiro reclamar da existência.Ouvi duas batidas leves na porta e me sentei na cama a tempo de ver Mel aparecer com uma caneca na mão.— Olha só — disse ela, entrando no quarto e me entregando a caneca. — Ela está viva.Segurei o café ainda quente com as duas mãos e fechei os olhos por um segundo, agradecida de um jeito quase espiritual.— Você é uma santa — murmurei antes de beber.— Não exagera, que eu perco a reputação — rebateu, sentando na beirada da cama. — Dormiu bem?— Melhor do que eu esperava. Pior do que eu merecia.Ela riu, apoiando uma das mãos no colchão.— Ótimo. Então agora você coloca uma roupa bonita porque nós vamos sair.Afastei a caneca da boca e franzi o cenho.— Você ainda tá nessa.— Daniela — ela disse meu nome com uma solenidade tão falsa que quase me fez rir. — Eu não esperei anos pra ter você aqui e passar a noite vendo série. Isso seria desperdício de reconciliação geográfica.— Reconciliação geográfica é muito bom.Tomei mais um gole de café, já sentindo a resistência fraquejar.— Que tipo de sair?Mel virou o rosto de lado, estudando minha expressão com malícia suficiente para me deixar alerta.— Um sair civilizado. Bonito. Com bebida gelada, música boa, vista pra praia e gente interessante.— Gente interessante me preocupa.— Porque você sempre associa isso a problema.— Porque geralmente é problema.Ela ergueu as sobrancelhas e levantou da cama num impulso leve.— Então pronto. Você vai linda, eu vou linda, a gente bebe alguma coisa e, se o lugar estiver insuportável, eu te trago de volta e prometo alimentar seu rancor pelo resto da noite.Encostei a cabeça na cabeceira, ainda segurando a caneca.— Você percebe que vende a armadilha com uma confiança impressionante, né?— E você percebe que já topou, né? — ela devolveu, apontando para mim antes de sair do quarto. — Vinte minutos. Quero sua versão gostosa e minimamente descansada na sala.A porta fechou antes que eu encontrasse uma resposta boa o bastante. Fiquei imóvel por um segundo, depois me voltei para a mala aberta no canto do quarto. O problema de ter amigas que conhecem você há tempo demais, era esse. Elas identificavam o momento exato em que a sua resistência era teatro.Levantei, encarei a mala aberta com a concentração de quem tomava uma decisão importante e absolutamente fútil ao mesmo tempo.Acabei escolhendo o vestido justo na medida, curto sem virar incômodo, decote valorizando o colo do jeito que eu gostava e tecido bom o bastante para cair no corpo sem ser apertado por obrigação. Separei também o salto, porque às vezes a melhor forma de lembrar a si mesma que ainda tinha controle sobre a própria vida era calçar um sapato bonito e sair por aí fingindo absoluta estabilidade emocional.Soltei o cabelo, já seco, sobre os ombros, ajeitei as ondas com os dedos e sentei diante do espelho para fazer a maquiagem. Só o suficiente para realçar o que eu queria, esconder o que o cansaço ainda insistia em mostrar e devolver ao meu rosto uma versão mais descansada do que a realidade permitia.Quando saí do quarto, Mel já estava pronta, apoiada na bancada da cozinha com uma taça na mão. Ela ergueu o rosto, conferiu primeiro minha expressão, depois o vestido, depois minha expressão de novo, e abriu um sorriso lento, satisfeito.— Ah, agora sim — disse, erguendo a taça em minha direção. — Essa é a minha Picles.Encostei um ombro no batente da porta e cruzei os braços, sustentando o sorriso.— Você fala como se tivesse me montado.— Se fosse possível, eu faria ajustes ainda mais ofensivos.Revirei os olhos, mas aceitei a taça que ela me ofereceu.— Você tá linda — falei, reparando melhor nela. — Ridiculamente linda, inclusive. Se alguém chorar naquela praia hoje, a culpa será sua.Mel fez um gesto elegante demais com a mão livre para não ser ironia.— Finalmente algum reconhecimento nessa casa.Ela pegou a bolsa, conferiu as chaves e disse por cima do ombro:— Vamos num bar na praia. Turístico, sim. Mas bonito. Você vai agradecer depois.Saímos de casa já com a noite começando a cair em camadas quentes sobre a ilha. A rua tinha ganhado outro ritmo. Gente rindo nas calçadas, casais dividindo sorvete e turistas tirando foto de tudo com uma dedicação quase comovente.Quando estacionamos perto da orla, o bar apareceu logo adiante, todo em madeira, luz quente e varanda aberta para a praia. Dava para ouvir a música antes mesmo de atravessar a rua. Tinha gente entrando, gente saindo, mesa ocupada, garçom acelerado e aquele clima de noite que prometia ficar boa por puro excesso de vida em volta.— É aqui — Mel anunciou, desligando o carro e voltando-se para mim com um sorriso satisfeito. — E antes que você reclame, eu já aviso: escolhi bem.— É bonito — cedi, saindo do carro com cuidado por causa do salto. — Continua turístico com força, mas é bonito.— Vitória minha — ela respondeu, fechando a porta com o quadril.Entramos juntas, acompanhadas pelo som do mar misturado à música e ao barulho de conversa espalhado no ar. Lá dentro, o ambiente me atingiu inteiro de uma vez só: luz dourada, copos tilintando, risos altos, cheiro de bebida doce misturado com maresia e um monte de gente tentando ser casual enquanto claramente queria ser vista. Parei por um instante perto da entrada, deixando tudo entrar em foco.— Tá lotado — comentei, inclinando a cabeça na direção do balcão.— Tá vivo — Mel corrigiu, divertida, segurando meu braço por um segundo antes de inclinar a cabeça para o fundo do salão. — E eu já volto. Vi uma pessoa que preciso cumprimentar ou ela vai transformar isso num drama pessoal.Soltei uma risada curta.— Vai. Claro que vai.— Pega uma bebida pra você — ela pediu, apertando meu braço de leve antes de se afastar. — Cinco minutos. Se eu demorar mais que isso, pode presumir que fui sequestrada por conversa fiada.Acompanhei Mel por alguns segundos, até ela desaparecer no meio do salão. Depois segui para o balcão. Havia dois bancos vagos um pouco afastados da parte mais barulhenta, e escolhi o da ponta sem pensar muito.Apoiei a bolsa ao lado, ajeitei o vestido nas coxas e ergui a mão para chamar o bartender. Quando ele se aproximou, pedi um drink gelado, qualquer um com cara de que valeria o preço abusivo.Recebi o copo alguns minutos depois e girei o canudo entre os dedos, observando o movimento do bar por cima da borda de vidro.Sozinha ali, com a música enchendo o espaço e a noite enfim começando de verdade, senti aquela calma estranha de quem ainda não sabia o que ia acontecer, mas tinha a impressão nítida de que a noite não ia passar em branco.